Se render para vencer.

É um paradoxo essa questão de se render para vencer.

Guardo a imagem de que a rendição significa a escravidão, certamente fruto das minhas brincadeiras de mocinho e bandido, dos filmes de cowboy. Quem se rendia, tinha que se submeter, se tornava escravo do vencedor.

Mas na vida real, na luta do cotidiano, aprendi que se render, em muitos aspectos significa a liberdade.

O que damos conta e o que não damos:

Vivemos atados a tantas coisas que não temos qualquer controle. Não controlamos as outras pessoas, os governantes e as instituições, e no entanto, insistimos em agir como se tivéssemos o controle, é claro, além de postar a nossa reclamação e se fazer representar nas urnas.

Acreditamos que somos ajudantes de Deus, e por isso nos estressamos na tarefa de consertar o mundo. Isso vale quando agimos assim com os nossos filhos e companheiras, os nossos gerentes na nossa empresa, aquele que nos fecha no trânsito e também as pessoas que nos atendem rudemente no comércio.

Como nos damos conta de que nos julgamos tão poderosos? É exatamente quando ficamos com isso ruminando na nossa cabeça. Alguém comete um deslize conosco, e imediatamente a condenamos, e passamos o resto do dia com esse evento na nossa cabeça, imaginando as penas, o castigo e a punição que nós mesmos planejamos concluir.

Quando nos rendemos a isso tudo que está literalmente fora do nosso alcance, nos libertamos, nos liberamos da atribuição de salvador, consertador do mundo. Ah!! Que alívio, que conforto, e a percepção do tempo e energia desperdiçados com tanta bobagem.

A rendição, assim como a aceitação do mundo tal qual ele é, representa uma liberdade, e ao mesmo tempo, a recuperação do nosso poder, aquele de lidar com responsabilidade e galhardia dos assuntos que realmente estão no nosso controle.

Mas é bom lembrar que rendição não quer dizer submissão, e nem aceitação significa resignação.

Quando nos rendemos, apenas deixamos de dar murro em ponta de faca. Paramos de desperdiçar o nosso tempo com coisa que não nos leva a lugar algum.

Podemos aceitar as pessoas como são, mas não temos qualquer necessidade de se fazer de capacho.

R.S. Beco

1 Comentário

Jovita Capitão

about 4 anos ago

Muito bom, este seu artigo!!!

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