Entrevista sobre felicidade para o Correio Braziliense

É um erro apostar tudo no materialentrevista sakay correio braziliense

O engenheiro Rubens Sakay, que enveredou pela área de recursos humanos em sua carreira, passou a se dedicar dez anos atrás ao estudo da felicidade. Para ele, é muito difícil uma pessoa ser feliz se apostar tudo nas coisas materiais. O cheiro do carro novo passa logo. Isso explica por que pessoas pouco abastadas conseguem ser felizes, diz. Ele aconselha às empresas que invistam no bem-estar de seus empregados, pois o retorno é enorme. Um vendedor feliz vende o dobro, assegura. Veja os principais trechos da entrevista de Sakay, que dá consultoria na área de petróleo e é autor do livro Hoje pode ser um dia melhor . (PSP)

O que faz a pessoa ser feliz?
A explicação genética fica com 50%. Outros 40% têm a ver com o que o indivíduo traz de dentro de si: a intencionalidade, a atitude frente à vida. Aquilo que quase todo mundo aposta como a razão para a felicidade o emprego bom, o bem-estar financeiro representa apenas 10% da pizza. É difícil a pessoa ser feliz se apostar tudo em cima de coisas materiais. Para todas essas coisas, o homem se adapta muito rapidamente. O cheiro do carro novo passa logo. Isso explica por que pessoas pouco abastadas conseguem ser felizes.

As pessoas não deveriam se preocupar com dinheiro?
A preocupação deveria ser calibrada pela compreensão de que isso significa 10% da felicidade. Se a pessoa colocar o foco no crescimento pessoal, nos 40%, vai se beneficiar de algo interessante que se observa: os 10% conjunturais serão valorizados. E até o que você é pode ser usado a seu favor, conforme mostra a epigenética, uma fronteira da ciência. Mas, se não se esforçar, a pessoa perderá a grande chance de ser feliz. Correrá o risco de se dar conta de que a velhice chegou cedo demais e a sabedoria, tarde demais.

Como é isso do ponto de vista das empresas?
A pessoa feliz vende o dobro, erra menos, tem menos conflitos, não rouba, resolve mais problemas. Médicos felizes fazem diagnóstico mais rápido e mais preciso. O Google, por exemplo, tem um ambiente muito descontraído. Por trás disso há o Chade Meng Tan. Tirando o Larry Page, é a pessoa mais conhecida na empresa. O maior benefício é para a saúde, o que reduz custos enormemente. Quando as pessoas são felizes, a ocitocina, um hormônio protetivo, é liberado. Isso explica por que a pessoa feliz falta, em média, 13 dias. A pessoa infeliz é debilitada.

Por que, então, todas as empresas não fazem isso?
Essa onda é recente. A ciência apresentou os resultados nas últimas três décadas. Hoje, nas organizações, nós ainda vivemos um mundo que é do resultado, da eficiênica, da estratégia, da liderança. Tudo é explicado pelo produto. Há poucas empresas que têm alguma iniciativa deliberada em prol da felicidade, como o Google. Outro bom exemplo é a Southwest Airlines, que colocou o amor como valor máximo. O código das ações dela na bolsa é LUV (semelhante a love, amor em inglês). A empresa decidiu até demitir um executivo de alto escalão que não respeitava esse mandamento. Ele era tão eficiente que teve de ser substituído por duas pessoas. Mas, no cômputo geral, a prioridade do amor só aumenta o lucro empresa, que tem resultados positivos há 40 anos em um setor que passa por muitas dificuldades.

Empresas que já são eficientes podem ser beneficiadas pelo foco na felicidade?
Sim. Pense no atendimento de balcão. Se o indivíduo consegue chegar ao trabalho feliz e transmitir um sorriso autêntico, que vem do coração, o cliente se sentirá acolhido. Empresas que colocam entre as exigências do funcionário o sorriso fazem com que muitas vezes ele entregue algo falso. Faz mal à saúde e não convence. O ser humano tem a capacidade de identificar o que não vem de dentro. Os bebê percebem.

E já se está fazendo isso?
Os avanços virão lentamente. No trabalho que eu faço nas empresas, eu noto que poucas veem isso do ponto de vista da felicidade. Valorizam a festa de aniversário, a animação. Essa parte é o verniz. Mas já é importante.

Quais são os riscos de um ambiente ruim para o indivíduo?
Ele vai encontrar pessoas que escondem informações, fazem fofoca. Se ficar ali, pode produzir pouco e adoecer; ou pode ir para outra empresa para ser feliz, mesmo ganhando menos, porque o salário faz parte dos 10%.

Nas boas empresas, a cobrança não existe?
Existe e é fundamental. Esse processo não é conflituoso. Resolver problemas é o nosso dia a dia. Mas eles serão resolvidos de modo mais saudável.

Sobre a entrevista:

Publicada no final do ano passado no jornal Correio Braziliense em uma série sobre felicidade.

 

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