Com as duas mãos

Com as duas mãos

Venho de uma cultura japonesa onde damos e recebemos com as duas mãos. Me lembro, na minha tenra idade, minha mãe se recusando a me entregar alguma coisa até que eu estendesse ambas as mãos. Neste início de ano, tive uma experiência fantástica que me remeteu imediatamente à essa lição, à essa lembrança.

A minha vizinha:

Tenho uma vizinha querida, muito jovem, um aninho de idade, a pequena Joana.

Ela passa frequentemente na rua, conduzida, ora pela mãe, pai, avós, e babá. Mas nesse dia, eu passava em frente da casa dela, e lá estava ela, de pé, ao lado da babá.

Estendeu ambas as mãos e acenou. Um gesto incomum, de carinho imenso, de uma pessoa especial.

Comunicação:

A pequena Joana, como é comum nas crianças de sua idade, já aprendeu a se comunicar, a reconhecer faces conhecidas. Mas o especial nisso tudo é que ela aprendeu a se comunicar com respeito, e com empenho, dando tudo de si naquele gesto, naquele aceno.

A minha infância:

Me remeteu imediatamente ao ensinamento que recebi por toda vida. Dar com mãos generosas e receber com mãos agradecidas – ambas as mãos.

Das coisas mais fortes que marcaram a minha educação foi a questão das duas mãos, e aqueles que tiveram contato com a cultura japonesa na sua essência, sabe do que estou falando.

Receber com as duas mãos não é só uma questão de etiqueta, é um sinal de respeito, de gratidão.

Gratidão:

Aprendi a receber a vida com gratidão, receber com mãos agradecidas.

Quem é agradecido pelo que recebe está sempre pronto a receber mais.

Tradições:

Aprendi a valorizar e a preservar as tradições, não pelo simbolismo, e nem mesmo porque é parte da minha herança, mas sobretudo pelos ensinamentos do bem viver, da harmonia e da sabedoria.

E me sinto imensamente abençoado quando me dou conta das coisas boas que me foi permitido aprender. As lições da infância, me vem na memória, assim como o aroma do bolo recém assado e a imagem do melhor presente de Natal.

Rubens Sakay (Beco)

 

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