Ouvir Posts

Feliz em ouvir plenamente.

Alguns dizem que é uma benção estar vivo.

Outros dizem que é uma benção poder ouvir.

Digo que é uma benção ter a capacidade de ouvir plenamente.

Isso não quer dizer ouvir fisicamente – não ser surdo.

Muita gente que não é surda não tem sequer a capacidade de ouvir.

Não preciso de atenção.

Diz Richard Carlson que algo mágico acontece ao espírito humano, uma sensação de calma nos invade, quando não mais precisamos de toda a atenção voltada para nós e conseguimos deixar a glória para os outros. O ego é aquela parte de nós que quer ser vista, ouvida, respeitada, considerada especial, frequentemente à custa de alguém.

É aquela parte de nós que interrompe a história que alguém está contando, ou impacientemente espera sua vez de falar para que a conversa e a atenção voltem a girar em torno de nós.

Todos temos isso em algum nível, e é uma experiência bastante confortável quando conseguimos participar de uma conversa simplesmente para ouvir e usufruir do conhecimento dos outros, sem querer falar, e principalmente sem comentar o que os outros acabaram de falar.

Todos já passamos por uma situação quando numa conversa, uma das pessoas pede a palavra para repetir exatamente o que a outra pessoa acabou de falar.

Será isso burrice?

Será que ela é surda e não ouviu o que a outra acabou de falar?

É, como Carlson comentou, a necessidade de chamar a atenção para si próprio.

Alguns sintomas de que estamos sofrendo desse mal.

Alguém conta uma história e você fica com uma coceira para contar algo sobre você mesmo, mudar o foco da atenção para a sua história.

Você está numa reunião e se senta na ponta da cadeira, como que criando impulso para correr para tomar a palavra, chamar a atenção.

Trocar experiência é fundamental, mas ficar constantemente querendo chamar a atenção é ruim para si próprio.

Um exercício para praticar:

-toda vez que alguém contar uma história, pergunte mais, peça mais detalhes, dê feedback, que bom!, como foi que isso aconteceu? como você se sentiu?

-sente-se relaxado na cadeira, e elimine a vontade de falar – escute e estabeleça uma comunicação gestual de compreensão, interesse, concordância.

-se você tem algo para contar, espere o incômodo silêncio depois que a outra pessoa terminar.

-não conte uma história que reduza a importância daquilo que você acabou de ouvir.

Beco

Os três potes defeituosos.

Transcrevo aqui a lição que aprendi na leitura do livro Meditando a Vida de Padma Samten.

A aprendizagem e o aprimoramento pessoas dependem fundamentalmente da nossa capacidade de ouvir.

O ouvir tem obstáculos imediatos, e os obstáculos estão ilustrados como três potes defeituosos.

O primeiro deles é o pote emborcado, no qual não se pode depositar nada.

A pessoa caracterizada pelo pote emborcado, pode até ouvir, mas não apreende nada. A origem desse defeito está no orgulho ou na inveja. Se pudermos substituir essas emoções pela humildade e pelo apreço ao professor, poderemos superar esse defeito.

O segundo obstáculo é o pote rachado. O ensinamento entra no pote, mas não se mantém lá. O progresso é muito lento. A pessoa até acredita que aprendeu alguma coisa, mas logo em seguida tudo se foi, e ela não sabe o que aconteceu. Esse defeito surge quando a pessoa está fixada aos referenciais da roda da vida, muito apego e predileção por coisas passageiras, tais como as coisas materiais.

O terceiro é o pote envenenado, e é o mais defeituoso. Nessa situação, os ensinamentos não produzem benefício, pois o pote está contaminado, corrompendo tudo o que nele é depositado. É quando a pessoa tenta converter os ensinamentos a exemplos de suas visões distorcidas.

É importante que os ouvintes sejam bons potes. Pode acontecer de ouvirem e gerarem amargor, oposição ou misturarem os ensinamentos com suas próprias teorias e continuarem a operar dentro de contextos limitados. Isso significa utilizar os ensinamentos para gerar habilidades capazes de produzir vitórias transitórias, ou seja, vitórias com todos os obstáculos inerentes à roda da vida.

Diz um velho provérbio budista que quando o aluno está pronto, o professor aparece, e outro que diz que quando o aluno é bom, qualquer um pode ser seu professor.

Podemos aprender boas lições com qualquer pessoa, basta que estejamos com o coração aberto para receber a lição.

A metáfora dos três potes é boa porque é fácil de se lembrar, e serve sempre como reflexão nos momentos que lutamos com as nossas idéias e as idéias dos outros.

Qual é o pote que está obstruindo a minha aprendizagem?

Beco

Esteja aberto para mudar de opinião.

Nos apegamos tanto às nossas opiniões que quando temos que mudar, é uma dor imensa.

Esteja aberto para mudar de opinião.

Como disse Leonardo da Vinci, “A maior decepção que o homem tem é com suas próprias opiniões.”

As opiniões estão carregadas de emoções, e se desapegar é um exercício longo, mas compensador.

Faça uma lista de opiniões que está disposto a mudar – comece com as coisas mais simples.

Numa oportunidade, onde uma opinião melhor aparecer, ouça com atenção, inquira, especule e adote esta nova opinião.

Mudar de opinião não garante o crescimento pessoal, mas é muito difícil crescer se ficamos presos às nossas velhas opiniões.

Praticar com pequenas coisas é sempre uma boa recomendação.

Começamos com roupas e acessórios até chegar aos itens mais complexos; pessoas, conceitos, princípios e caráter.

Uma recomendação de ouro é perguntar a opinião do outro.

Parece uma coisa boba, mas raramente fazemos.

Somos tão prepotentes que lançamos a nossa opinião, fazemos as nossas colocações e sequer aguardamos ou pedimos as opiniões dos outros.

Quando cristalizamos a nossa opinião e não mudamos por nada nesse mundo, é sinal de que deixamos de enxergar o mundo em constante mudança.

Perceba quanta coisa mudou, e quantas dessas mudanças desafiaram a maneira como você via o mundo.

Muitas idéias antigas, são como ferramentas que perderam a sua finalidade, não servem mais ao seu objetivo, viraram um peso morto.

Se dê conta disso.

Na medida em que amadurecemos, revisamos tantos conceitos, mudamos tantas opiniões e no final isso traz um conforto.

É como utilizar um sapato novo. O velho sempre parece mais confortável, se encaixa melhor ao que você pensa que é.

Mas está furado, perdeu o cadarço, não tem mais uso – deixe ir.

Beco

A lógica do ponto de vista contrário.

É interessante como às vezes não conseguimos entender o ponto de vista das outras pessoas, especialmente quando as idéias não batem com as nossas.

É uma reação natural até certo ponto, mas uma barreira ruim para a nossa aprendizagem.

Temos que fazer um esforço para entender o ponto de vista contrário, pois só assim vamos aprender alguma coisa nova e diferente de tudo que já sabemos.

De modo geral, achamos que entendemos e discordamos, mas em muitas das vezes, discordamos sem sequer entender verdadeiramente o que foi dito.

Entender algo que não se alinha com o nosso pensamento exige esforço, exige paciência, determinação e humildade. É importante saber que a lógica do ponto de vista contrário quase sempre é diferente da lógica que estamos usando para tentar entender.

Uma recomendação importante é ouvir atentamente quando alguém está expondo o seu ponto de vista. Já comentei aqui, que o oposto de falar não é ouvir e sim se preparar para falar – postagem ouça o que o outro está dizendo.

Isso acontece também conosco, quando os outros não entendem o nosso ponto de vista.

Temos as mesmas deficiências das pessoas comuns – em algum momento cometemos as mesmas falhas.

Quantas vezes você não parou de falar ou evitou prosseguir na sua argumentação simplesmente porque o seu interlocutor demonstrou total desinteresse no que você estava falando.

Quando estiver numa discussão e os pontos de vista não coincidirem, faça sempre a pergunta mágica – será que posso aprender algo novo?

Essa pergunta abre a sua mente para receber uma opinião diferente.

Quando demonstramos interesse, fazemos gestos de que estamos entendendo e interessados, o interlocutor prossegue, detalha, se esforça para explicar e isso é valioso.

Quando demonstramos o contrário, ele muda de assunto, interrompe, e também se dispersa.

Importante também, é prestar atenção naquilo que não foi dito.

Assim como a passagem de um famoso romance policial, onde o fato do cachorro não ter latido é que foi a pista essencial para se chegar ao criminoso, pois se concluiu que era uma pessoa familiar ao cachorro.

Numa conversa comum, aquilo que foi suprimido é também uma informação essencial, e quando não estamos dispostos a ouvir, deixamos passar todas essas sutilezas das mensagens.

Não desafie desnecessariamente as idéias diferentes, o que não quer dizer deixar de defender seus pontos de vista. Não use de sarcasmo, cinismo e não seja prepotente.

Isso é desnecessário, dificulta a comunicação presente e futura, além de aumentar o calor e o estresse da interação.

Richard Carlson, que já comentei aqui, faz o seguinte observação que vou reproduzir totalmente: “ a primeira vez que conscientemente experimentei a estratégia de ver o ponto de vista do outro, em primeiro lugar, descobri algo maravilhoso, não doeu nem um pouco, e me aproximou da pessoa de quem eu discordava.”

Beco

Ouça também com o coração.

Temos dois ouvidos e já é difícil ouvir atentamente, imagine ouvir com o coração, que está lá escondido.

Mas acredite, isso é importante.

Quando fazemos o contato olho no olho, iniciamos uma conexão que vai direto no nosso emocional.

É algo que já comentei, uma habilidade ancestral, é o fenômeno da ressonância límbica.

Quando paramos o que estamos fazendo e prestamos atenção, estabelecemos a comunicação plena, inclusive com o coração.

O seu coração pode lhe dar muitas respostas, pois ele está ouvindo o que a razão não consegue interpretar.

Nos comunicamos plenamente quando:

-assumimos uma atitude compassiva;

-fazemos um esforço para entender;

-quando calamos a nossa voz interior, crítica e prepotente;

-quando exercitamos a empatia;

-quando ouvimos com sinceridade;

-quando queremos ouvir mais do que as palavras;

-quando entendemos que a conversa não é uma competição;

-quando acalmamos o nosso ímpeto de falar.

O contrário também acontece. Podemos também fechar os olhos do coração e tentar levar a vida racionalmente, frugalmente.

Podemos pesar os prós e contras numa balança objetiva, deixando de lado os sentimentos e as emoções.

Logo estaremos acostumados, isolando o coração dessa conversa toda. Não permitimos ao coração dizer o que pensa, dizer o que ouvir, e logo estaremos também infelizes.

Quando ouvimos com o coração, a nossa mente está em paz.

Quando ouvimos com o coração, oferecemos um ambiente seguro para o outro falar.

Como disse São Bento, ouça com os ouvidos do seu coração.

Quando ouvimos com o coração, ligamos todas as antenas emocionais.

As palavras são apenas as sinalizações de algo mais profundo e não podemos perder isso tudo.

Quando a verdadeira comunicação se estabelece, às vezes, até as palavras se tornam desnecessárias.

Beco

A velha opinião formada sobre tudo.

A guerra para que nossa opinião prevaleça sobre os demais, é uma fonte de estresse e de infelicidade.

Pra que ter razão em tudo?

Somos os donos da verdade?

Temos o monopólio da sapiência plena?

As nossas opiniões são nossas, e não é necessário que os outros concordem com isso.

O conjunto de nossas opiniões é o nosso ego.

Ter opinião sobre tudo e querer ter razão em tudo é o ego inflado e doentio.

Como disse Raul Seixas – “do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”..

Não se apegue tanto às suas opiniões.

O conflito acirrado de opiniões gera mais negatividade. Deixe passar.

Aprenda a diferenciar a opinião de inteligência.

A inteligência vê o pensamento sem julgar o certo e o errado. A opinião é como alguém vê algo, a visão crítica.

Isso tudo sem falar nos aspectos práticos dos processos criativos.

Conhecemos bem o mecanismo do brainstorming – tempestade de idéias, quando queremos criar algo novo, uma solução inovadora.

Todos os participantes são estimulados a dar idéias com liberdade, sem qualquer crítica interna, e posteriormente o grupo trabalha a massa intelectual produzida.

Em resumo, o pensamento divergente é bom e mais produtivo.

Como mencionei em postagem anterior sobre encontrar diferenças e a importância para o nosso aprendizado.

É difícil ver a verdade em meio ao conflito de opiniões. Li uma vez que as pequenas verdades são ruidosas, mas a grande verdade é um silêncio profundo.

As suas opiniões te deixam agressivo?

Você está sempre disputando com os outros dentro do conceito de certo e errado?

Aprenda a lidar com o desconforto com a divergência.

Abandone um pouco essa guerra, e faça isso no dia-a-dia para ser mais feliz.

Beco